domingo, 17 de julho de 2011

Coisa de viver.

  E mesmo que eu pense até a cabeça adoidá, que eu olhe pro lado, e até que eu ache tudo muito engraçado... vai ser sempre isso ai.


  A vida é mesmo essa coisa esquisita, fica encravada na gente, por todo canto. A gente mexe, remexe, tentando se acostumar. Às vezes acomoda, e a gente até começa a achar bom. Mas daí incomoda, a gente vira coisa pequena e quer sumir. Tem gente que fica querendo desencravar a vida do peito que arde. Tem gente que é indiferente, nem sente nada (será que é gente mesmo?). Tem gente que vai levando, e fica num jogo que aquietá, desinquietá.

  Mas vai ser sempre isso ai mesmo. Um dia a gente vai se acostumá.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

  Ela, mulher. Ele, homem. Ela, como mulher, cumpria o papel que lhe fora concedido. E talvez até mesmo confiado. Ele crescia cada dia mais, tentando alcançar o estado de homem.


  Ela, maior que ele, cobria-o com seu manto cor de vinho, abrigando-o. Era como um pássaro, uma mãe-pássaro, que voava e sempre ia voar, acompanhando-o. Um espetáculo fascinante.

  Ele, ainda menino. Sempre menino, mesmo que desejasse tender para homem. Ela, ainda mulher. Sempre mulher. Ela precisava de filhote para se sentir mãe, ele precisava de vôo para se sentir homem.

  Às vezes soava engraçado, todo riam, e felizes, falavam com gosto. E se a natureza era perfeita, quem poderia dizer que eles não eram?

  ...

  Mas nem sempre a perfeição sacia. E é aí que entra o bicho homem.

sábado, 9 de julho de 2011

texto completo.


Se pelas sombras nada via, o que eu podia querer mais?
Na verdade, era tudo muito simples. Bastava abrir os olhos, bastava parar e sentir. Mais simples que o simples. Por isso, incomum.
Eu me desfazia como coisa e me remontava como pessoa.
Por mais que o espaço fosse pequeno, era meu. E isso o tornava grande. O que me confortava é que podia, quando quisesse, ultrapassá-lo.
Eu era forma de não sei o quê. E era tão bom ter poder. Ter querer.
Não me lembrava muito bem do que tinha acontecido. Sei que podia. Tinha liberdade de.
Mas as linhas me diziam por onde ir. Mais do que loucura, era realidade. As letras ligavam-se. Vida-letra. Era o que eu tinha. E estava satisfeita, pois era completo (a).
Não pensava no que se precisava e sim no que se queria. Afinal, livre. E sentia que tinha acabado, e por isso acabou.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Aplausos. ( Humano-ser)

Silêncio, escuro, luz focada no ator, que está no centro do palco, de cabeça baixa e olhos fechados.


Pedro abre os olhos e olha pra a platéia.

- Tudo o que fizeram comigo ficou. Ficou marcado e pendurado em mim. Já o que eu fiz... bom, o que eu fiz não importa. Passou. Não se importaram no dia em que eu chorei, tampouco no dia em que eu sorri... O que diminuiu meu sorriso.

Ele pega um espelho, e dirige ao rosto, devagar.

- Olho meu rosto no espelho, à procura de traços. Traços de mim.

Joga o espelho no chão, mas sem muita força.

- Não vejo!

Agacha-se, e continua caminhando, olhando para a platéia ás vezes.

- Mas mesmo não vendo, gosto de olhar... Permaneço á espreita, observo um mundo decadente. Mas o que eu mudo dizendo essas coisas? Eu, mudo. Ah, bobagem! Ninguém me ouve. Sou só mais um eu em busca do seu eu! É certo, tento encontrar-me, sim. Mas mais que isso busco a verdade. A verdade iluminada no meio do lixo do homem. Homem, lixo. Lixo! (encara a platéia)

- Mas o que se espera, afinal? (risos). Por Deus! Somos tão medíocres! Tão covardes!Tão, tão...nada. E Deus? Bom, Deus... prefiro não falar disso agora.

- e quer saber? Que batam na minha cara!(se bate no rosto) Vamos ver! Eu, como homem, assumo que mereço apanhar!

-até continuar a arrasta-me pelas ruas...como um rato. Até os ratos são mais dignos! A natureza, tamanha perfeição, seguiria seu destino normalmente. Não fosse o homo, mísero, que necessita de provar sua superioridade. Animais! É até um elogio!

(Anda pelo palco)

- O que importa de verdade é que eu estou aqui. (bate no peito, já parado) Ou talvez não importe nada...Vaguei por muito tempo. Tempo demais. Perdido no escuro... mas voltei. Voltei com esperanças de nunca mais partir.

- Afinal, sou ser. Humano-ser.

Luzes se apagam.

De cor.

  Moro em uma casa sem cor. Nunca sue dizer a cor da minha casa e também nunca quis saber. É que no mundo tem muita cor. Tanta cor que o homem jamais conseguirá nomear todas elas- sim, pois cada elemento da natureza, cada detalhe, forma uma nova cor. Muitas não são perceptíveis aos nossos olhos- e se conseguir, porque o homem tem essa mania de dar nome as coisas, não saberá ensiná-las às crianças, e nem gravar todo os nomes. A ambição do homem ultrapassa sua capacidade. Então temos as variações. Variações e instabilidades de azul, verde, amarelo, vermelho, preto e branco. É isso: moro em uma casa cor de variações e instabilidades.


  Queria mesmo é ter uma casa vermelha e azul. Assim, coisa bem bonita, e ai as pessoas iam parar pra olhar minhas cores e minhas cores iam mudar o dia dessas pessoas. Colorindo-os de vermelho e azul. Mas vermelho e azul bem fortes, como nos filmes de Almodóvar. “ Cores de Almodóvar”- disse bem Adriana Calcanhotto.

  Não que as minhas paredes com manchas de umidade me incomodassem. Na verdade, já tinha me acostumado com elas. E elas tinham se acostumado comigo. Convivíamos e nos aceitávamos. Eu observando, elas crescendo e tomando formas. Forma de arte. E eu, arte. Eu, arte? Queria.

  Talvez até precisasse. Então eu seria forte como as personagens de Almodóvar. Mulher como a Penélope Cruz, nos filmes vermelhos e azuis.

Seria feliz.

Seria feliz?

.

No dia em que Deus se esqueceu da existência,


No dia em que a natureza não quis que o sol nascesse,

O homem correu,

e tentou acender a lâmpada.

Mas o ciclo estava se fechando,

e na decadência,

Enfim o homem não teve o controle.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Eu me perdi,
no que se diz de corpo.