domingo, 4 de setembro de 2011


estou de volta
                                                         sem moda
                                                                                                
                                                                                                         tudo volta

Domingo não é um bom dia.


O que seriam das mãos calejadas se não trabalhassem tanto?
Segunda não é um bom dia.
Ah, a mão é só a estética, o interior que influencia.
Tudo que se estende pode ser limitado,
Limitação,
O corpo é o ser desprezado,
No chão?
Nem sempre.
Sexta não é um bom dia.
Espera que já vem a resposta.
Espera?
É o que se tem na sonolência do dia-a-dia.
A lentidão do tempo passa.
Domingo não é um bom dia.
O que se espera é o que já se calou,
No grito da boca surda
muda
e cega.
O vento que sopra é o mesmo que volta.
E a quem queremos enganar?
São os ventos os verdadeiros escultores da vida.
O tempo que passa é nada.
Nada é o que se passa,
Se é o que deixamos passar.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O gato



  Ele me avistou, de longe. Mas eu não o vi. As lágrimas escorriam, e andei cambaleando até a porta. Abri. Não consegui entrar, cai no chão, e de lá o avistei – os olhos grandes me olhavam, sem precisar me chamar – já tinha minha permissão de se aproximar, veio até mim. Era como um abraço. Fez carinho.
  Fazia tempo que não conversávamos, andávamos meio estressados, sozinhos. Mas assim mesmo, ele fez como nos dias de dor dele, em que eu fazia carinho, e dizia que não entendia, mas estava ali e ia passar. Ele, forte, sempre resistiu às dores. E elas passavam mesmo. Mas ele sabia da minha dor, não era preciso dizer. Desde que me avistou, sabia do tamanho da minha dor. Ele também não entendia, e era quase como se dissesse: estou aqui e via passar.
  Em pranto, deitei-me no chão. Ele ficou comigo, me rodeando, fazendo carinho, desde a cabeça, até meus pés. Doía, doía muito. Era como se tivessem arrancado um pedaço de mim. Era como se desistisse do maior dos sonhos.
  Falei um pouco, conversamos. Ele meio calado, estava ali para ouvir. Ele só foi embora quando viu que eu já podia me levantar. Entrou em casa, e quase disse: - Vamos, levante-se! Obedeci. Devagar – ainda sentindo a dor -, levantei. Fechada a porta, ele se aproximou, a sala escura. Eu, no chão novamente. De tanto carinho, peguei-o no colo, abraçando-o, como um filho. Mas eu era o filhote ali. Fechou os olhos e entregou sua paz para mim, dando tudo.
  Era o mais fiel. Disse isso para ele, fazendo carinho em suas mãozinhas peludas. Eu não tinha nojo de seu sujo, e nem ele do meu. Dividíamos nossos ruins.
  Ele reclamou de fome, eu também. Então fomos comer, cada qual seguindo seu rumo, indo deitar na sua cama. Chegávamos da noite, cansados da vida, mas ainda tínhamos um ao outro.

quarta-feira, 27 de julho de 2011


Meu eu está insuportável,
Insustentável.
Isso faz com que minhas borboletas desassosseguem.
Hoje mais duas fugiram de mim.
Não gosto de perder minhas borboletas.
Agora tenho um vácuo.
Ter um vácuo dói.
Mas não tem remédio para vácuo.
Estou me completando com palavra.
Depois de muita palavra,
as borboletas vão querer brincar.
Vai dar cosquinha,
e eu vou rir.
Então vou voltar a ter borboletas e ainda terei palavras:
Borboletas e palavras é uma combinação ótima.
Minha solidão me provoca.
parece coisa que não acaba mais:
cada dia fica maior.
É como um balão,
se enchendo de vazio...
enchendo,enchendo,enchendo...
Será que quando estourar sai alguma coisa pra acabar com meu sozinho?


Enquanto eu não consigo pintar minha realidade com cor de sonho,
Eu vou dormir pra poder misturar as tintas.

Ela queria entrar no mundo. Porque se sentia muito fora dele. Sentia necessidade de fecundá-lo. Mas para fecundar o mundo não podia ir devagar, não tinha chance de teste. Para fecundar o mundo precisa ter coragem.
Então ela tinha que ficar maior.
Voltar.
Ficou primitiva: tirou a roupa e se entregou ao natural. Ao sol.
E o sol a empurrou.
Ela foi como mulher e mergulhou, fecundou o mundo. Mesmo o mundo sendo maior, ela não teve medo.
No que ela foi, se perdeu no que se diz de corpo. Virou coisa maior. Maior que ela mesma, não se coube. Mas coube no mundo, que a fecundou também.