sexta-feira, 30 de março de 2012

Cem batimentos por ora


Vem. Mas vem depressa. Tenho desejo e o desejo é a pressa da vontade.

Senta. Mas faça como se a casa fosse sua, tire as botas, desarrume os lençóis, beba leite no bico.

Beba leite. Meu leite. Mas se lambuze.

Depois deita. Deita em mim. Agora.

Entra, a porta está aberta.

Afinal é para isso que fomos feitas não? Parte de nós está em uma espera corrente.

É quase uma invasão. Mas pode vir. Meu ventre está maduro agora. Meu útero, o mesmo de onde eu tiro
forças para lhe dizer tudo isso, dói, lateja, mas se prepara. A dor é a perda de um preparo.

Doem em mim muitas coisas. Mas pode vir, deita em mim, que meu útero espera sempre.

E eu espero agora ser fecundada pela palavra;

Quero gozar na poesia

Tirá-la do meu útero

E menstruar na frase.

Sangue,
Gozo
E prazer:

todos
poéticos.

(é nas sutilezas que sou mulher)

quinta-feira, 29 de março de 2012


Seus passos
desgraçados
Deixam pegadas
E vão

Mas são passos
Degradados
Por já terem tocado o chão

E nesses passeios
Seus pés fazem questão de pisar
Em todos aqueles meus anseios
Que seus seios não souberam consolar

Mas que passem seus passos então
No final tudo passa
E só fica o chão.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Camomila


Quando a gente e encontrava quase que dava pra ouvir a explosão. Você me tocava forte e eu dizia não, não. Mas você parecia que nem queria me ouvir, e ficava assim, debochando do meu não, e eu caindo no seu sim. Era um jogo doce que você fazia comigo. E eu jogava.
Aquilo que eu nunca soube explicar já durava pra lá de Abril. Por vezes me peguei procurando entender em que tempo tudo se encaixava. Mas não, a gente era pra mais do tempo. Tanto era que eu ficava meio assim sem rumo quando te via. Você olhando as estrelas, como quem não quer nada, enquanto eu te laçava as mãos, e íamos assim, caminho sem volta, pela orla de uma praia qualquer.
Era gostoso o som que você fazia depois de me beijar. E enquanto eu te beijava dava pra sentir sua respiração na minha. Não sei se eram os cabelos, o cheiro, ou o quê. Não sei. Sei que você me arrepiava, e eu olhando você entrar na água azul, assim, as ondas quebrando nos seus joelhos, o sol queimando seus cabelos (que ficavam cada vez mais loiros), eu te vendo com dificuldade já, você nadando mais que sereia... Eu cruzava os braços, segurando aquele seu vestido branco de renda, os bordados eu sabia de cor.
Eu te olhava não conseguindo imaginar nada que importasse mais na vida que aquilo. Talvez a vida fosse aquilo mesmo. Seja assim, esse tudo...mas curto suspiro. Você gritava, vem,vem! Eu ali, naquele suspiro. Você ali, naquele respiro.
Encontrávamo-nus e eu tentava te tirar tudo de uma só vez.  Você com o sorriso habitual de tranquila... ar de feliz. Ria por baixo dos lençóis, fazia sinais de abraço, escondia o rosto, corria pela casa sem as roupas e com as janelas abertas.
É que você parecia mesmo não ter medo da vida. Era tudo parte de um grande mundo, que te aguardava. E você, paciente.
Mas quando a gente se encontrava era explosão. Eu via as faíscas ralando em mim. Você nem ligava. Aquele olhar brando... Era tudo tão inquieto... instável...que até parecia amor.
Às vezes eu abraçava seu travesseiro só pra sentir seu cheiro de camomila.
-Você me ama?
-É claro.
- De verdade?
-Não.
...
-Amo de sonho mesmo.

Calafrios poetizados


Desfio a palavra
Com a facilidade
De quem faz um filho.
Atonalidade:
fecundo o verbo
e
 ARREPIO

A palavra veio ontem
Acontece hoje
E suspira amanhã

sábado, 3 de março de 2012

Revista Samizdat

Olá!
Então gente, mais uma vez, vou postar um link pra vocês. Um texto meu texto saiu em uma revista, e além dele, tem vários outros textos legais. Acessem, leiam e compartilhem por ai!

Abraço,
Sara Meynard.

p.s.: estou adorando os comentários aqui no blog :)

http://pt.scribd.com/doc/82903691/SAMIZDAT-32 (meu texto está nas páginas 35 e 36)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Felicidade
vem e me invade
em plena segunda feira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Extrínseco

Depois daquele dia eu confesso que se acentuou em mim aquela mania de abrir gavetas sem ter o que colocar, e eu sentia aquela fome aguda, aquela fome que não é vontade de comida, mas um vazio, a fraqueza que fica na gente depois de dias sem comer. E para ralar um pouco as minhas vontades eu andava pelas ruas, sempre movida a lembranças, mantendo meu olhar profundo, meu olhar me fecundava, e junto com ele aquele emaranhado de fantasias que eu necessitava, era uma necessidade de viver na invenção, eu sentia um prazer íntimo em montar fantasias que me sustentassem enquanto eu percorria cambaleante essa tal de realidade que insistia em aparecer.

Realidade ou não eu olhava para ela como se admirasse algo que estivesse muito além dali, daquele lugar. Eu não a deixava perceber o conforto que seu rosto esculpido de uma forma proporcional me trazia. Eu não a deixava perceber, mas também admirava em extremo segredo suas mãos e pés (era como uma coisa proibida). Eles também eram incrivelmente proporcionais, aliás, o corpo todo era um equilíbrio onde até as unhas se combinavam. Os pés e as mãos se comunicavam, e o corpo todo na verdade, eles me chamavam, sim, sempre tive uma admiração por extremidades, e aqueles pés pareciam muito macios, eram pequenos e se mexiam no lençol azul, aquele lençol azul que me dava uma paz, ela não sabia, mas eu adorava naquele instante, exatamente naquele instante, o jeito que ela me olhava assim por cima, deitada ali, virada para mim.
Era o fim de uma tarde de inverno e eu começava a sentir os meus pêlos se arrepiando, meu corpo reclamava do frio que fazia. Eu queria mesmo era um carinho, um aconchego, um conforto. Mas ela só me olhava e falava. Ela estava ali, deitada ao meu lado, com os lençóis azuis, o dia ficando alaranjado com o pôr do sol, seus cabelos pedindo desesperadamente um afago, e ela só me olhando como se não pudesse me tocar.
O silêncio ali estava dando uns vazios estranhos, daqueles de quando a gente vê alguém pela primeira vez e tem a sensação equivocada de que o silêncio é um buraco que precisa ser preenchido. Eu desejava o silêncio. Mas ficava ali olhando e falando junto dela. Deixei de lado também o abraço. Como meus braços queriam os dela, eu nunca quis tanto um abraço, pensava. Daqueles que se afunda a cabeça no outro, daqueles que a gente some no outro, esquece do tempo e o abraço vai ficando cada vez mais forte ali, ligado ao outro corpo que recebe tudo de um jeito grandioso. Mas mesmo que nós soubéssemos que soltávamos assim um ar de carinho, de carência, tinha aquele medo do toque, ela era sensível ao toque, na verdade ela era extremamente sensível, não em toda a completude da palavra sensível, mas ela era, sobretudo, sensível para os outros.
Ela estava lá, e os traços e linhas por todo o seu corpo relatavam-me muitas histórias. Algumas partes minhas apareciam por cima dos lençóis, algumas dela também, mas eu não me importava, na verdade eu fiquei admirando aquele desejo do corpo de escorregar pela roupa e aparecer e nos mostrar como éramos diferentes.
Não sei se ela percebeu, mas o vento fechou a janela num instante, e a luz do quarto diminuiu. Sentia tudo aquilo como um convite da vida, e tudo que a vida fizera mesmo durante todo aquele tempo foi nos convidar, mas ela ainda só falava e me olhava.
Eu juro que aquele dia eu desejei que a noite ficasse só do outro lado do mundo. Nós nos revelando histórias fundas, eu ia descobrindo cada vez mais, e eu constatava mais uma vez que continuava no meu interesse pelas histórias alheias, aquele meu interesse de cavar os outros, talvez tentando achar de alguma forma um lugar para mim. E eu não sabia, ainda não sei (e nunca vou mesmo saber) se ela fingia não perceber que gostava do meu cheiro ali, eu ali, e eu estava pronta, dentro, eu tinha entrado naquilo tudo, ou se ela não gostava mesmo, e por isso não via nada. Às vezes eu sentia que ela estava em outro lugar; mas não, era aqui o lugar que deveríamos estar agora.
Eu havia me despido para ela. Estava ali, nua, mas ela ainda de roupa, havia mil reticências nos separando, todas criadas por ela, e como eu quis fazer um carinho, arrebentar todos aqueles pontos, eu queria te encher de vírgulas, e quem sabe lhe dar algumas exclamações...?! E eu quis fazer um carinho, você pedia um carinho, eu via sua necessidade assim: GRANDE. Mas eu não fiz.
E a noite veio devagar, eu sentia que já era hora. A janela se abriu, e a cidade invadiu o quarto, na mesma velocidade com que ela se levantou. Quando seus pés tocaram o chão tudo aquilo acabou, aquele simples toque da pele dos péspequenoscomunhasquecombinavam e o chão frio dava um choque, tudo voltava, e eu senti na carne que tudo estava sendo destruído. E o peso de tudo, o entulho, caiu sobre mim, diretamente sobre mim. Porque o entulho dessas construções pode se espalhar, mas o peso sempre é maior para quem construiu.
Eu ia suportar esse peso depois. Agora ela se levantava e olhava para mim com um jeito de adeus que me incomodava. Eu me vesti e senti todo o peso dos calçados. Ela só me olhava e falávamos coisas sem propósito agora. Eu precisava falar para suportar a brutalidade com a qual ela ia embora.
 E a minha brutalidade de ficar.

Ficar.

Hoje sinto como se uma parte de mim tivesse ficado nos lençóis azuis, ou talvez ela tenha levado assim na bagagem, sem perceber. Ou talvez ela saiba disso e me guarde. Não sei. Sei que por mais um dia depois daquele tive seu cheiro comigo, que me esquentou na noite fria de terça feira.
Uma só coisa me incomodava e talvez me impedisse ali, mas não sei se ela se importou muito: é que sem eu ver ela passou a chave na porta, e as janelas...eram pequenas demais.